domingo, 12 de abril de 2015

Arazi, O Mundo dos Sonhos – História: Evelon Barfield


História

 Evelon nasceu numa cidade grande com espírito de cidade pequena, ruas rodeadas de flores, guardas simpáticos, céu azul, temperatura sempre conveniente, maratona nos cinemas, belas praias e montanhas como cartão postal.

A cidade era linda, mas a guerra não. Há alguns anos uma guerra se alastrou no país, no continente, e apesar da preocupação dos cidadãos os governantes diziam estar tudo sob controle. Mas numa manhã de abril com metade da cidade evacuada por decisão própria, tinha aqueles que não tinham como ir, como sair da cidade onde nasceram e cresceram para ir para um lugar onde não se sabia a situação, essas pessoas que ficaram temiam a guerra, mas temiam mais pelas pessoas que amavam. Evelon é uma delas, depois que a guerra cresceu e se espalhou os militares recrutaram pessoas fortes para a guerra, ou seja, de boa saúde com a certeza de que seus familiares iriam para um lugar seguro, o pai de Evelon – Arthur Barfield – Era doutor, de porte físico admirável, muito inteligente e amava a família de forma incondicional, assinou um contrato da certeza de que quando fosse para o campo de guerra sua família iria ser protegida, seus familiares não aceitava tal condição, mas ele estava decidido a proteger e dá um futuro melhor para aqueles que ele amava.

Na madrugada fria sua mulher e sua filha estavam à porta se despedindo – sem saber – para sempre. Mas Alex, seu irmão mais velho não se sentia pronto para ser o homem da casa, não se dava bem com a mãe e seu pai era seu modelo para o futuro, mesmo que ele ignorasse muitas de suas lições. O relacionamento de Evelon e Alex nunca fora dos melhores também. Isso por serem muito diferentes, Evelon sempre preferiu esgrima, natação e artes, já Alex sempre preferiu futebol, basquete e videogames, isso pode parecer diferenças normais entre irmãos, mas ia além disso, desde que Evelon nasceu ele sentia-se desprezado pela família da mãe, inclusive pela mesma, pois desde pequena Evelon demonstrava dons artísticos, excelente dicção e parecia atrair mais olhares da família, mas foi a falta de comunicação que fez com que esses irmãos se afastassem, pois Evelon não deixava ninguém saber seu sofrimento, um sofrimento oculto. 

Primeiramente Evelon tinha muita dificuldade de aprendizado, por isso ela se esforça ao máximo, assistindo aulas de pré-faculdades e passava horas na biblioteca tentando entender coisas que para Alex eram fáceis, sempre fora ruim em matérias de exatas e línguas estrangeiras, coisas que o irmão sabia fácil, fácil. Tudo o que Evelon tinha dificuldade era posto em arte, ela amava pintar, ela julgava ser a única coisa que era boa, pintar e ler sempre fora suas paixões, mas como o irmão desde sempre fora bom em esportes ela tratou de começar a fazer algo por recomendação da mãe, por isso começou a praticar esgrima que era algo extracurricular, e como na escola ela tinha de praticar algo também escolheu natação, não era nenhuma paixão em particular, mas o pai gostava bastante que ela praticasse.
Outras coisas que Evelon escondia era uma paixão secreta, Clarck O’Brien o garoto que morava na rua atrás da sua casa, gostava desde de seus cabelos castanhos mel, até suas roupas na maioria das vezes personalizadas pelo próprio, porém Clarck nunca a notou, inclusive no último ano começou a namorar a Janddine a garota que pegava no pé de Evelon na pré-escola.

Flashback [...]

Em outubro no outono, estava chovendo muito mesmo, uma chuva diferente para a estação, era fim de tarde quase ao pôr do sol, Evelon saíra da biblioteca carregada de livros para estudar uma matéria que não entrava na sua cabeça, nessa época Alex estava disputando o campeonato na sua escola e estava meio estressado. Assim que Evelon saiu da biblioteca a chuva piorou e estava tão forte que ela teve de esconder os livros em baixo do seu casaco para protegê-los e mesmo assim não era o suficiente, ela então entrou no Darwin & Dallas a venda que tinha de quase tudo do bairro.

Trriiiin

O barulho do sininho acima da porta quando Evelon a abre e entra ensopada.
– A chuva não está brincando né? – Disse o caixa e único funcionário do local que possuía pele, cabelo e barba escuros. Evelon o via bem de vez em quando pelas ruas do bairro.
– Verdade... Droga molhou os livros todos! – Disse Evelon tirando seu casaco e enxugando-os o máximo que podia.

Outro trriiiin, quem entra? Clarck.

Deixou sua bicicleta na calçada e entrou retirando o capuz e balançando os cabelos. Já fazia um ano que Evelon gostava dele, mas nunca conversaram.
– Boa tarde Darwin, uma soda, por favor!
Evelon fixou os olhos no rapaz, mas não quis o deixar perceber. Infelizmente ou felizmente os livros de Evelon caíram ela solta um “droga” bem mais alto do que gostaria. Ele então se abaixou perto dela e pegou a metade dos livros e ela a outra metade, ambos levantaram-se ao mesmo tempo.
– Aqui! – Ele a entrega os livros e dá um meio sorriso.
Enquanto isso Darwin traz a soda e coloca em cima do balcão.
– Obrigada! – Ela responde sem jeito.
– Depois te pago Darwin, vou lá! – E Darwin faz um sinal com a cabeça. Logo após ele sai normalmente do local.
Esse dia foi à primeira interação dos dois.
No próximo ano, os dois ficaram na mesma sala e Evelon mantinha seus movimentos estritamente calculados, ela não ria, não falava, nem levantava sem antes calcular tudo, mas Clarck continuava parecendo não nota-la. Mas um dia o amigo idiota de Clarck, chamado Shawn fizera uma brincadeira na sala, mas Clarck tentou impedir a brincadeira que aconteceria com o próximo que entrasse na sala e impulsivamente e Evelon foi ajuda-lo, não queria que a professora fosse vitima das brincadeiras idiotas de Shawn e não gostaria que Clarck se encrencasse. No final o resultado foi que ambos se encrencaram e ficaram no final da aula de castigo com mais três outros alunos, após o sermão do diretor e das zoações dos amigos de Clarck pela janela. Um suspiro de “idiotas” e uma sobrancelha erguida de “não sei por que você anda com eles” ele se vira para Evelon.
– Obrigada...
– O que?! – Diz ela surpresa, achou que passaria o resto do ano e não se falariam mais.
– Obrigada por ajudar com a pegadinha e por se encrencar comigo...
– Não foi nada, detesto o “senso de humor” do Shawn a professora não merecia.
– Ah claro...
– Mas... Eu nunca fiquei de castigo, obrigada pela maravilhosa experiência.
Dois sorrisos, dois olhares. E pronto.

[...]

A partir daí já conversavam por telefone, às vezes almoçavam juntos no intervalo e o sentimento de Evelon ia crescendo. Não eram melhores amigos, mas passavam bastante tempo juntos, ele gostava das pinturas de Evelon e ela gostava da atenção dele.
Evelon e Alex eram cada vez mais distantes, brigas constantes de Alex e sua mãe e seu pai cada vez mais atarefado no hospital passava menos tempo em casa. Um dia iria ter uma chuva de meteoros e os dois marcaram de vê-la no pico da colina, era como um pequeno parque, mas não muito frequentado por causa da dificuldade para chegar, ela achou que era o momento perfeito, seria quando aconteceria o primeiro beijo, ou qualquer coisa parecida, ela se arrumou de forma que não costumava fazer, estava nervosa, ansiosa, feliz.
Mas quando chegou lá estava acontecendo uma festa, música alta, luzes desnecessárias e muita gente, todos os amigos de Clarck estavam lá e passaram a noite jogando piadinha e charadas que Evelon não sabia decifrar, não poderia se sentir mais desconfortável, mas não foi embora, pois não queria que Clarke pensasse coisas dela, mas o que foi pior do que o desconforto do momento foi ver que Janddine estava lá, toda bonita, bem vestida, maquiada e chamava muita atenção como sempre. O final da noite não foi melhor, todo mundo num jipe, Evelon atrás espremida com os amigos inconvenientes de Clarke e Janddine na frente, parecia bem à vontade com as conversas, risadas e piadas, diferente de Evelon.

Clarck chega à frente da casa de Evelon, não restam mais muitas pessoas no carro, mas se ela tinha alguma esperança de algo romântico com Clarck ao olhar para Janddine tudo acabara. Despediram-se logo depois enquanto ela caminhava em direção à porta de sua casa, o vendo pela última vez no ano, ele a prometeu que no ano seguinte ficariam na mesma sala e que gostaria de ver a pintura especial que ela dissera que iria dar de aniversário para ele. Era o fim do ano, inicio das férias que foram um saco para Evelon que não fazia nada além de ficar em casa e treinar esgrima no quarto. Alex mal ficava em casa e quando estava não conversava com quase ninguém, até que se mudou uma garota chamada Chelsea para casa da frente, a velha casa que estava vazia há algum tempo, Evelon e Chelsea começaram a conversar e descobriram coisas em comuns, estava quase recomeçando as aulas e nada de ligações de Clarck, mas Evelon pensou que Clarck havia viajado com a família e não tinha como ligar e também não tinham internet. Ela queria que ele se divertisse muito e contasse tudo o que lhe aconteceu, gostava de ouvir suas histórias e isso fazia com que ela não se importasse tanto com meus dias maus. Ela então decidiu também aproveitar seu fim de férias com sua nova e única amiga, até planejavam como que seria a escola e o que fariam de novo no ano que começaria e como agora Evelon estava muito mais animada em praticar natação já que a amiga amava e a incentivava muito.

Porém uns dois dias antes das aulas começarem a péssima notícia: Chelsea se mudaria, os pais dela nunca permaneciam num mesmo lugar por causa do trabalho, por isso poupavam até de contar para a filha os prazos que passariam nos lugares e dessa vez até Chelsea estava esperançosa, mas a notícia não magoou tanto outra pessoa como Evelon. No dia seguinte com templo nublado no coração da mesma ela ligou para o celular de Clarck, já que as aulas começariam no dia seguinte ele já deveria estar em casa, mas ninguém atendeu. O dia das aulas chegou e chegando à escola logo na entrada viu seu amigo e nunca sentira tanta falta de conversar com ele quanto àqueles meses, ao correr se aproximando do mesmo que estava encostado num carro uma coisa a chocou como nada havia feito antes. Janddine se aproxima dele sorridente e cola seu corpo no dele e Clark a abraça pela cintura, sorrindo muito.

Os passos de Evelon ficavam cada vez mais devagar e sua respiração mais ofegante, logo todos os amigos de Clarck se aproximavam e ela ouvia a palavra “casal” a todo instante. O sinal tocou, Evelon segurou a lágrima e entrou na escola, dessa vez infelizmente Clarck estava novamente em sua sala, junto de Janddine e para mais infelicidade ele foi falar com ela no inicio da aula. Disse que trocou de número, pois o celular antigo havia caído dentro d’água e nem se deu o trabalho de avisar a Evelon e isso tinha acontecido no inicio das férias, e toda conversa a cada momento era mais massacrante para ela, ele contou que tinha ido para um resort de luxo com a família e lá encontrou com a família de Janddine. Além de ter passado as férias todas com ela, voltaram namorando e nesse meio tempo Evelon ficou esquecida em memórias antigas que para ela foram os melhores momentos de sua vida, para ele algo que aconteceu e se passou e não fora tão importante assim.

Assim Evelon que só via defeito em si, achara que em algum momento tinha sido especial, mas sentiu-se iludida por si mesma a cada dia se sentia sozinha, sua família estava lá, mas não se sentia próxima dela, ela e seu irmão mal conversavam e seu pai mesmo que quisesse nunca estava em casa e dia após dia de escola tinha de se afastar de quem ela sempre gostara e o pior o ver junto de outra pessoa. Eles ainda se falavam: “oi” daqui “oi” dali, “e aí?!”, “tudo bem?”, era isso durante todo o ano que fazia por várias vezes Evelon ir para o banheiro chorar escondida. Recusou-se a pintar novamente e não tinha mais nenhum interesse em se esforçar para nada, até que quando se achava que não podia piorar, era rumores de guerras por todo lado, a cidade se esvaziando, seu pai indo para o campo de guerra para nunca mais voltar. Indo para um lugar completamente estranho com sua mãe e irmão que mal sabiam o que ela sentia.


A guerra tirou-lhe o pai que tanto amava e que sentia que não passava tempo suficiente com ele, deixou seu irmão ainda mais fechado com ela e a mãe e estava mais sozinha do que quando se sentira abandonada por quem amava. Apesar de Evelon querer superar tudo isso era muito mais difícil para ela convencer a si mesma disso.

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