História
Evelon nasceu numa cidade grande com
espírito de cidade pequena, ruas rodeadas de flores, guardas simpáticos, céu
azul, temperatura sempre conveniente, maratona nos cinemas, belas praias e
montanhas como cartão postal.
A cidade era linda, mas a guerra não.
Há alguns anos uma guerra se alastrou no país, no continente, e apesar da
preocupação dos cidadãos os governantes diziam estar tudo sob controle. Mas
numa manhã de abril com metade da cidade evacuada por decisão própria, tinha
aqueles que não tinham como ir, como sair da cidade onde nasceram e cresceram
para ir para um lugar onde não se sabia a situação, essas pessoas que ficaram
temiam a guerra, mas temiam mais pelas pessoas que amavam. Evelon é uma delas,
depois que a guerra cresceu e se espalhou os militares recrutaram pessoas
fortes para a guerra, ou seja, de boa saúde com a certeza de que seus familiares
iriam para um lugar seguro, o pai de Evelon – Arthur Barfield – Era doutor, de
porte físico admirável, muito inteligente e amava a família de forma
incondicional, assinou um contrato da certeza de que quando fosse para o campo
de guerra sua família iria ser protegida, seus familiares não aceitava tal condição,
mas ele estava decidido a proteger e dá um futuro melhor para aqueles que ele
amava.
Na madrugada fria sua mulher e sua
filha estavam à porta se despedindo – sem saber – para sempre. Mas Alex, seu
irmão mais velho não se sentia pronto para ser o homem da casa, não se dava bem
com a mãe e seu pai era seu modelo para o futuro, mesmo que ele ignorasse
muitas de suas lições. O relacionamento de Evelon e Alex nunca fora dos
melhores também. Isso por serem muito diferentes, Evelon sempre preferiu
esgrima, natação e artes, já Alex sempre preferiu futebol, basquete e videogames,
isso pode parecer diferenças normais entre irmãos, mas ia além disso, desde que
Evelon nasceu ele sentia-se desprezado pela família da mãe, inclusive pela
mesma, pois desde pequena Evelon demonstrava dons artísticos, excelente dicção
e parecia atrair mais olhares da família, mas foi a falta de comunicação que
fez com que esses irmãos se afastassem, pois Evelon não deixava ninguém saber seu
sofrimento, um sofrimento oculto.
Primeiramente Evelon tinha muita dificuldade
de aprendizado, por isso ela se esforça ao máximo, assistindo aulas de
pré-faculdades e passava horas na biblioteca tentando entender coisas que para
Alex eram fáceis, sempre fora ruim em matérias de exatas e línguas
estrangeiras, coisas que o irmão sabia fácil, fácil. Tudo o que Evelon tinha
dificuldade era posto em arte, ela amava pintar, ela julgava ser a única coisa
que era boa, pintar e ler sempre fora suas paixões, mas como o irmão desde
sempre fora bom em esportes ela tratou de começar a fazer algo por recomendação
da mãe, por isso começou a praticar esgrima que era algo extracurricular, e
como na escola ela tinha de praticar algo também escolheu natação, não era
nenhuma paixão em particular, mas o pai gostava bastante que ela praticasse.
Outras coisas que Evelon escondia era
uma paixão secreta, Clarck O’Brien o garoto que morava na rua atrás da sua
casa, gostava desde de seus cabelos castanhos mel, até suas roupas na maioria
das vezes personalizadas pelo próprio, porém Clarck nunca a notou, inclusive no
último ano começou a namorar a Janddine a garota que pegava no pé de Evelon na
pré-escola.
Flashback [...]
Em outubro no outono, estava chovendo
muito mesmo, uma chuva diferente para a estação, era fim de tarde quase ao pôr
do sol, Evelon saíra da biblioteca carregada de livros para estudar uma matéria
que não entrava na sua cabeça, nessa época Alex estava disputando o campeonato
na sua escola e estava meio estressado. Assim que Evelon saiu da biblioteca a
chuva piorou e estava tão forte que ela teve de esconder os livros em baixo do
seu casaco para protegê-los e mesmo assim não era o suficiente, ela então
entrou no Darwin & Dallas a venda
que tinha de quase tudo do bairro.
Trriiiin
O barulho do sininho acima da porta
quando Evelon a abre e entra ensopada.
– A chuva não está brincando né? –
Disse o caixa e único funcionário do local que possuía pele, cabelo e barba escuros. Evelon o via bem de vez em quando pelas ruas do bairro.
– Verdade... Droga molhou os livros
todos! – Disse Evelon tirando seu casaco e enxugando-os o máximo que podia.
Outro trriiiin, quem entra? Clarck.
Deixou sua bicicleta na calçada e
entrou retirando o capuz e balançando os cabelos. Já fazia um ano que Evelon
gostava dele, mas nunca conversaram.
– Boa tarde Darwin, uma soda, por
favor!
Evelon fixou os olhos no rapaz, mas
não quis o deixar perceber. Infelizmente ou felizmente os livros de Evelon
caíram ela solta um “droga” bem mais alto do que gostaria. Ele então se abaixou
perto dela e pegou a metade dos livros e ela a outra metade, ambos levantaram-se
ao mesmo tempo.
– Aqui! – Ele a entrega os livros e
dá um meio sorriso.
Enquanto isso Darwin traz a soda e
coloca em cima do balcão.
– Obrigada! – Ela responde sem jeito.
– Depois te pago Darwin, vou lá! – E Darwin faz um
sinal com a cabeça. Logo após ele sai normalmente do local.
Esse dia foi à primeira interação dos dois.
No próximo ano, os dois ficaram na mesma sala e Evelon
mantinha seus movimentos estritamente calculados, ela não ria, não falava, nem
levantava sem antes calcular tudo, mas Clarck continuava parecendo não nota-la.
Mas um dia o amigo idiota de Clarck, chamado Shawn fizera uma brincadeira na
sala, mas Clarck tentou impedir a brincadeira que aconteceria com o próximo que
entrasse na sala e impulsivamente e Evelon foi ajuda-lo, não queria que a
professora fosse vitima das brincadeiras idiotas de Shawn e não gostaria que
Clarck se encrencasse. No final o resultado foi que ambos se encrencaram e
ficaram no final da aula de castigo com mais três outros alunos, após o sermão
do diretor e das zoações dos amigos de Clarck pela janela. Um suspiro de “idiotas”
e uma sobrancelha erguida de “não sei por que você anda com eles” ele se vira
para Evelon.
– Obrigada...
– O que?! – Diz ela surpresa, achou que passaria o
resto do ano e não se falariam mais.
– Obrigada por ajudar com a pegadinha e por se
encrencar comigo...
– Não foi nada, detesto o “senso de humor” do Shawn a
professora não merecia.
– Ah claro...
– Mas... Eu nunca fiquei de castigo, obrigada pela
maravilhosa experiência.
Dois sorrisos, dois olhares. E pronto.
[...]
A partir daí já conversavam por telefone, às vezes
almoçavam juntos no intervalo e o sentimento de Evelon ia crescendo. Não eram
melhores amigos, mas passavam bastante tempo juntos, ele gostava das pinturas
de Evelon e ela gostava da atenção dele.
Evelon e Alex eram cada vez mais distantes, brigas
constantes de Alex e sua mãe e seu pai cada vez mais atarefado no hospital passava
menos tempo em casa. Um dia iria ter uma chuva de meteoros e os dois marcaram
de vê-la no pico da colina, era como um pequeno parque, mas não muito
frequentado por causa da dificuldade para chegar, ela achou que era o momento
perfeito, seria quando aconteceria o primeiro beijo, ou qualquer coisa
parecida, ela se arrumou de forma que não costumava fazer, estava nervosa,
ansiosa, feliz.
Mas quando chegou lá estava acontecendo uma festa,
música alta, luzes desnecessárias e muita gente, todos os amigos de Clarck
estavam lá e passaram a noite jogando piadinha e charadas que Evelon não sabia
decifrar, não poderia se sentir mais desconfortável, mas não foi embora, pois
não queria que Clarke pensasse coisas dela, mas o que foi pior do que o
desconforto do momento foi ver que Janddine estava lá, toda bonita, bem
vestida, maquiada e chamava muita atenção como sempre. O final da noite não foi
melhor, todo mundo num jipe, Evelon atrás espremida com os amigos inconvenientes
de Clarke e Janddine na frente, parecia bem à vontade com as conversas, risadas
e piadas, diferente de Evelon.
Clarck chega à frente da casa de Evelon, não restam
mais muitas pessoas no carro, mas se ela tinha alguma esperança de algo
romântico com Clarck ao olhar para Janddine tudo acabara. Despediram-se logo
depois enquanto ela caminhava em direção à porta de sua casa, o vendo pela
última vez no ano, ele a prometeu que no ano seguinte ficariam na mesma sala e
que gostaria de ver a pintura especial que ela dissera que iria dar de
aniversário para ele. Era o fim do ano, inicio das férias que foram um saco
para Evelon que não fazia nada além de ficar em casa e treinar esgrima no
quarto. Alex mal ficava em casa e quando estava não conversava com quase
ninguém, até que se mudou uma garota chamada Chelsea para casa da frente, a velha
casa que estava vazia há algum tempo, Evelon e Chelsea começaram a conversar e
descobriram coisas em comuns, estava quase recomeçando as aulas e nada de
ligações de Clarck, mas Evelon pensou que Clarck havia viajado com a família e
não tinha como ligar e também não tinham internet. Ela queria que ele se
divertisse muito e contasse tudo o que lhe aconteceu, gostava de ouvir suas
histórias e isso fazia com que ela não se importasse tanto com meus dias maus.
Ela então decidiu também aproveitar seu fim de férias com sua nova e única
amiga, até planejavam como que seria a escola e o que fariam de novo no ano que
começaria e como agora Evelon estava muito mais animada em praticar natação já
que a amiga amava e a incentivava muito.
Porém uns dois dias antes das aulas começarem a
péssima notícia: Chelsea se mudaria, os pais dela nunca permaneciam num mesmo
lugar por causa do trabalho, por isso poupavam até de contar para a filha os
prazos que passariam nos lugares e dessa vez até Chelsea estava esperançosa,
mas a notícia não magoou tanto outra pessoa como Evelon. No dia seguinte com templo
nublado no coração da mesma ela ligou para o celular de Clarck, já que as aulas
começariam no dia seguinte ele já deveria estar em casa, mas ninguém atendeu. O
dia das aulas chegou e chegando à escola logo na entrada viu seu amigo e nunca
sentira tanta falta de conversar com ele quanto àqueles meses, ao correr se
aproximando do mesmo que estava encostado num carro uma coisa a chocou como
nada havia feito antes. Janddine se aproxima dele sorridente e cola seu corpo
no dele e Clark a abraça pela cintura, sorrindo muito.
Os passos de Evelon ficavam cada vez mais devagar e
sua respiração mais ofegante, logo todos os amigos de Clarck se aproximavam e
ela ouvia a palavra “casal” a todo instante. O sinal tocou, Evelon segurou a
lágrima e entrou na escola, dessa vez infelizmente Clarck estava novamente em
sua sala, junto de Janddine e para mais infelicidade ele foi falar com ela no
inicio da aula. Disse que trocou de número, pois o celular antigo havia caído dentro
d’água e nem se deu o trabalho de avisar a Evelon e isso tinha acontecido no
inicio das férias, e toda conversa a cada momento era mais massacrante para
ela, ele contou que tinha ido para um resort de luxo com a família e lá encontrou
com a família de Janddine. Além de ter passado as férias todas com ela,
voltaram namorando e nesse meio tempo Evelon ficou esquecida em memórias
antigas que para ela foram os melhores momentos de sua vida, para ele algo que
aconteceu e se passou e não fora tão importante assim.
Assim Evelon que só via defeito em si, achara que em
algum momento tinha sido especial, mas sentiu-se iludida por si mesma a cada
dia se sentia sozinha, sua família estava lá, mas não se sentia próxima dela, ela
e seu irmão mal conversavam e seu pai mesmo que quisesse nunca estava em casa e
dia após dia de escola tinha de se afastar de quem ela sempre gostara e o pior o
ver junto de outra pessoa. Eles ainda se falavam: “oi” daqui “oi” dali, “e aí?!”,
“tudo bem?”, era isso durante todo o ano que fazia por várias vezes Evelon ir para
o banheiro chorar escondida. Recusou-se a pintar novamente e não tinha mais
nenhum interesse em se esforçar para nada, até que quando se achava que não
podia piorar, era rumores de guerras por todo lado, a cidade se esvaziando, seu
pai indo para o campo de guerra para nunca mais voltar. Indo para um lugar
completamente estranho com sua mãe e irmão que mal sabiam o que ela sentia.
A guerra tirou-lhe o pai que tanto amava e que sentia
que não passava tempo suficiente com ele, deixou seu irmão ainda mais fechado
com ela e a mãe e estava mais sozinha do que quando se sentira abandonada por
quem amava. Apesar de Evelon querer superar tudo isso era muito mais difícil
para ela convencer a si mesma disso.









